Mil razões

Diziam que sempre chega de repente, mas só diziam. Daquela vez chegou, afinal. Parecia que alguém lhe jogou no colo, como só faria sentido naqueles filmes. Ninguém sabia como chegou, mas estava lá. De graça. Agora era só prender, segurar firme e não deixar soltar.

"Se for a música, o dia, o jeito como você tenta abreviar meu nome..."

Lidava sem sua segurança habitual, como deveria ser. Enfim, via-se tentando melhorar. Com três dúvidas para cada certeza. Mas decidiu que podia se deixar sentir, sim -- depois de tantas doses de ânimo e sucessivas frustrações. Daquela vez, queria gritar e não mais manter no escuro.

"Eu poderia te dar mil razões, mas alguém escreveria sobre você?"

E quando o deitou em seus braços, teve certeza: estava de volta ao jogo.

Onze

"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe." (Oscar Wilde)

Descanse em paz

Relendo aquelas palavras, ela finalmente entendeu. Depois de tanto tempo, percebeu o que significa aquele sentimento -- infantil, piegas, beirando o ridículo, mas real.

"Descobri coisas novas com você", dizia a carta.

Pois é, meu amigo. Mas ela escolheu viver em um outro mundo. Viver demais, até o fim, sem você, que só queria alguma segurança. E isso era algo que ela nunca teve para oferecer, apesar da excelente aparência. Moça de fino trato e peito vazio, mesmo depois das inúmeras tentativas de poder encará-lo e dizer que sim, também estava descobrindo algo. Quem poderia culpá-la?

"Descobri que te amo", falou ele em um outro dia. Sem resposta.

E foram adiante, até acabar. Um acabou com o outro. Ele cobrando amor, ela vendendo qualquer outra coisa. Desmoronaram. Ele, com o peso do mundo nas costas, tentando achar os erros; ela, sob alguma culpa, mas não muita.

Talvez ela não estivesse pronta. Talvez nunca esteja.

Sal

Ah, eu sei que não devia, me desculpe. Mas é que a vontade de que viver um mês, um ano, um tempão naquilo foi maior que eu. Dizem que é sintomático, não sei. Diagnóstico fácil de quem não vive. Não era você ali, afinal. O engraçado é como a gente continua caindo nesta doença que desfaz seu mundinho na menor interpérie: porque não havia chão, só boas intenções.

Chão não se faz sozinho.

Déjà vu

A sedução de um novo ano é justamente a oportunidade de um recomeço. Mas não há recomeço saindo de um mesmo ponto de partida e caindo nos mesmos buracos.

Pior ainda quando é por opção.

Gemas

Ela tinha 20 "e poucos anos". Não gostava de definir. Vivia pela família, pelos amigos. Tinha histórias de vida incríveis, apesar de seus círculos limitados. Era de uma inocência que chegava a incomodar (mas ela mesmo não se incomodava).

Era fácil de estar ali, mas difícil de ter, chamar de sua. Dizia - com um pouco de orgulho - que nunca havia sido de ninguém, "até onde se lembrava". Demonstrava fraquezas sintomáticas, arrependimentos. E, de novo, quando falava sobre sua vida, a inocência se sobressaía - e esbarrava em uma sinceridade desconcertante.

Ela era, mas não muito.

Seus instintos sexuais eram evidentes, mas não se entregava. Disso vinha seu charme, a vontade que inspirava em quem queria tê-la. E ela parecia administrar essa vantagem em um conta-gotas.

Se fosse uma cor, seria mostarda. Se fosse um dia, seria quinta. Se fosse um advérbio, seria quase.
...

Ele era expansivo. E de uma passionalidade que chegava a incomodar (mas ele mesmo não se incomodava). Sua beleza estava no charme, quase magnético. Mesmo fora de si, dizia as palavras certas - ou pelo menos aquelas que o momento pedia.

Sabia ser ridiculamente romântico, exagerado. Facilmente apaixonável.

Entregava-se desde o começo: não era difícil ouvi-lo falar em namoro, casamento, "uma vida feliz para sempre, sabe?". Fazia planos o tempo todo, e não media esforços. Era difícil saber até que ponto podia-se acreditar nele, separar a porção dos fatos e dos desejos. Mas era sincero, honesto, estava completamente ali - ou queria estar. Ele era um caso raro, uma edição piloto.

Se fosse uma cor, seria amarelo ouro. Se fosse um dia, seria sábado. Se fosse um advérbio, seria muito.